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Cultuar Astaroth nos dias atuais

Entre história, devoção e prática contemporânea: como construir uma relação espiritual consciente sem confundir tradição moderna com documentação antiga.

Leitura estimada: 15–18 min
Última revisão: setembro de 2026
Templo Soberano de Astaroth

Cultuar uma antiga Divindade no século XXI inevitavelmente nos coloca diante de uma pergunta: como estabelecer uma prática espiritual hoje sem fingir que vivemos na Antiguidade?

No caso de Astaroth, essa questão se torna ainda mais importante.

Sua longa trajetória envolve tradições antigas relacionadas a Astarte, transformações linguísticas, registros bíblicos, séculos de reinterpretação religiosa e, posteriormente, sua presença nos grimórios europeus.

Não possuímos um manual antigo preservado contendo uma liturgia contínua, intacta e destinada ao culto moderno de Astaroth.

Também não seria historicamente responsável inventar essa continuidade apenas para tornar uma prática contemporânea aparentemente mais antiga.

Mas isso não significa que uma relação espiritual atual não possa existir.

Significa apenas que precisamos saber onde termina a documentação histórica e onde começa uma tradição viva construída no presente.

Honrar uma Divindade antiga hoje não exige fingir que o tempo não passou. Exige compreender o passado e assumir com consciência aquilo que construímos no presente.

Culto antigo e prática contemporânea não são a mesma coisa

Estudos sobre religiões pagãs contemporâneas mostram que muitas tradições modernas procuram inspiração, conexão ou reconstrução a partir de religiões pré-cristãs.

Ao mesmo tempo, pesquisadores ressaltam que as formas organizadas dessas religiões contemporâneas pertencem ao mundo moderno. 1

Essa observação é importante para a maneira como o Templo Soberano de Astaroth apresenta sua própria prática.

Não afirmamos possuir uma cadeia ritual ininterrupta transmitida desde Ugarit, Sidon, a antiga Mesopotâmia ou qualquer outro centro religioso da Antiguidade.

O estudo dessas culturas nos ajuda a compreender as antigas tradições.

A prática espiritual que construímos hoje, porém, pertence ao presente.

Pesquisa histórica

O que existiu

Textos antigos.

Arqueologia.

Templos.

Iconografia.

Cultos documentados.

Tradição contemporânea

O que vivemos hoje

Devoção.

Oração.

Altares.

Ritos.

Experiência espiritual.

Uma coisa pode dialogar com a outra.

O problema começa quando uma prática criada hoje passa a ser apresentada como se estivesse comprovadamente documentada há três mil anos.

Uma tradição contemporânea não se torna menos legítima porque reconhece que é contemporânea. Clareza histórica fortalece, e não diminui, a prática espiritual.

Quem é Astaroth para o Templo Soberano?

Antes de falar em altar, oferenda ou rito, precisamos responder à pergunta que sustenta toda a prática: quem está sendo cultuada?

No Templo Soberano de Astaroth, nós não cultuamos Astaroth como um demônio.

Astaroth é adorada como uma antiga Divindade cuja trajetória atravessou séculos de transformações religiosas, culturais e simbólicas.

Reconhecemos que sua representação demonológica faz parte dessa história.

Ela é estudada.

Os grimórios são lidos.

Os registros posteriores são analisados.

Mas a demonologia não representa, para nós, a origem nem a totalidade de Astaroth.

Em nossa tradição, Ela é compreendida em sua dimensão divina, feminina e soberana.

Ela é a Grande Deusa. Ela é a Soberana deste Templo.

Nossa devoção não nasce da necessidade de negar aquilo que foi escrito posteriormente. Nasce da decisão de não permitir que apenas os registros demonológicos definam toda a história da Soberana.

Estudar também é uma forma de devoção

Para o Templo, a prática espiritual não deve ser construída apenas sobre experiências subjetivas.

Estudar ajuda a separar aquilo que está documentado daquilo que foi criado posteriormente, repetido sem fonte ou incorporado por tradições modernas.

Quando estudamos Inanna e Ishtar, por exemplo, aprendemos que ambas possuem uma história complexa.

O ORACC, projeto acadêmico dedicado às fontes da antiga Mesopotâmia, registra Inanna/Ishtar como uma das grandes divindades do panteão mesopotâmico, associada, entre outros aspectos, à sexualidade, à guerra e ao planeta Vênus. 2

O mesmo recurso também mostra que não existe sequer uma única manifestação absolutamente uniforme de Ishtar ao longo de toda a história mesopotâmica. 2

Esse tipo de estudo nos ensina uma lição importante: religiões antigas eram mais complexas do que listas modernas de “correspondências mágicas”.

Antes de repetir uma informação

Quatro perguntas úteis

1

De onde veio essa informação? Existe texto, objeto arqueológico ou estudo identificável?

2

De qual época estamos falando? Uma fonte do século XVI não descreve automaticamente uma prática da Idade do Bronze.

3

É documentação ou interpretação? As duas podem ser importantes, mas não são a mesma coisa.

4

Isso pertence à história ou a uma tradição espiritual atual? Identificar essa diferença evita falsas certezas.

Culto não é apenas pedir

Em uma prática devocional, a relação com uma Divindade não precisa existir somente quando há um problema a ser resolvido.

Devoção também envolve presença, constância, respeito, aprendizado e reconhecimento do sagrado.

Uma pessoa pode aproximar-se de uma tradição espiritual apenas quando precisa de algo.

Mas isso é diferente de construir um culto.

Cultuar implica estabelecer espaço para a relação espiritual existir para além da urgência imediata.

Devoção não é transformar a Divindade em uma ferramenta para realizar desejos. É reconhecer uma presença sagrada que possui valor para além daquilo que podemos pedir.

O altar como ponto de encontro

Altares e pequenos santuários aparecem com frequência em religiões pagãs contemporâneas como espaços de relação entre praticantes, divindades, espíritos ou ancestrais. 3

Dentro de uma prática moderna, um altar pode funcionar como um espaço de concentração, oração, oferenda e ritual.

Isso não significa que todos os altares precisem ser iguais.

Tampouco significa que qualquer composição moderna possa ser anunciada como reconstrução exata de um templo antigo.

O espaço devocional precisa fazer sentido dentro da tradição que está sendo praticada.

Oferendas: tradição não é uma lista pronta da internet

A oferenda é uma prática encontrada em inúmeras religiões, antigas e modernas.

Estudos sobre religiões pagãs contemporâneas registram oferendas que podem envolver alimentos, bebidas, objetos e até produções criativas, dependendo da tradição. 3

Isso, porém, não significa que exista uma lista universalmente documentada de “oferendas corretas para Astaroth” válida para todos os períodos históricos.

Quando uma tradição moderna utiliza determinados elementos, precisa ser honesta sobre sua origem.

Uma coisa é dizer: “este elemento é utilizado em nossa prática contemporânea”.

Outra completamente diferente é afirmar: “este elemento era oferecido exatamente assim a Astaroth há milhares de anos” sem documentação que sustente isso.

Tradição viva pode criar linguagem ritual. O cuidado está em não transformar uma escolha contemporânea em falsa antiguidade.

Ritualizar é estabelecer intenção, presença e conexão

Um ritual não precisa existir apenas para produzir um resultado material.

Ele pode marcar agradecimento, devoção, compromisso, encerramento, passagem, oração ou aprofundamento espiritual.

Dentro do Templo, compreendemos o ritual como uma forma de estabelecer intenção, movimento e conexão com o sagrado.

Isso também significa que um rito não substitui decisões, responsabilidades e ações concretas na vida cotidiana.

Espiritualidade e realidade material não precisam ser tratadas como universos concorrentes.

Qual é o lugar dos grimórios em um culto contemporâneo?

Os grimórios fazem parte da história de Astaroth.

Ignorá-los completamente seria apagar séculos de transformação e uma parte importante da maneira pela qual seu nome chegou à tradição ocidental.

Em obras como a Pseudomonarchia Daemonum de Johann Weyer e posteriormente a Ars Goetia, Astaroth já está inserido em uma cosmologia demonológica, descrito como um poderoso duque. 4 5

Esses documentos são importantes para compreender uma fase posterior da trajetória.

Para o Templo, porém, eles não constituem a única fonte possível para definir a identidade da Soberana.

Estudar o grimório

Sim

Conhecer a história.

Entender a demonologia.

Analisar atributos posteriores.

Identificar transformações.

Reduzir toda Astaroth ao grimório

Não

O documento é tardio.

Possui contexto próprio.

Não representa sozinho toda a história.

Não define a teologia do Templo.

Nem tudo é sinal

Uma prática espiritual saudável também exige discernimento.

Quando uma pessoa começa a aprofundar sua devoção, é natural tornar-se mais atenta a sonhos, coincidências, sensações e acontecimentos incomuns.

Mas atenção não precisa se transformar em interpretação automática.

Um sonho não é automaticamente uma mensagem.

Uma coincidência não é automaticamente um sinal.

Uma sensação não é automaticamente uma presença espiritual.

Discernimento também faz parte da prática.

Buscar o sagrado não significa abandonar a capacidade de questionar aquilo que sentimos, pensamos ou interpretamos.

Espiritualidade não substitui responsabilidade

Cultuar uma Divindade não significa entregar cada decisão da própria vida à interpretação de sinais, oráculos ou experiências espirituais.

A religião pode orientar, inspirar e oferecer significado.

Mas escolhas continuam produzindo consequências.

Relações, trabalho, dinheiro, saúde, compromissos e responsabilidades práticas continuam exigindo ação humana.

Dentro do Templo, não compreendemos a espiritualidade como uma desculpa para abandonar a própria autonomia.

Uma prática consciente

Quatro pilares importantes

I

Estudo. Conhecer antes de repetir.

II

Devoção. Cultivar a relação para além do pedido imediato.

III

Discernimento. Nem todo acontecimento precisa receber uma explicação espiritual.

IV

Responsabilidade. A prática espiritual não elimina ação, consequência ou autonomia.

Como começar a se aproximar de Astaroth?

A primeira aproximação não precisa ser grandiosa.

Antes de procurar rituais complexos, fórmulas ou listas intermináveis de correspondências, vale construir uma base.

Estude sua história.
Diferencie fonte antiga de tradição moderna.
Leia antes de reproduzir informações.
Estabeleça um espaço devocional consciente.
Desenvolva constância antes de buscar complexidade.
Observe sem transformar tudo em sinal.

Uma oração simples, um momento de silêncio, o estudo de uma fonte ou a organização de um pequeno espaço devocional podem possuir mais sentido do que reproduzir um ritual que a pessoa não compreende.

A profundidade não está necessariamente na quantidade de elementos.

Está na consciência com que a prática é construída.

Começar com respeito, estudo e constância vale mais do que tentar parecer avançado dentro de uma tradição que ainda não se conhece.

E a experiência pessoal?

Experiência religiosa faz parte da vida de inúmeras tradições espirituais.

Sonhos, intuições, estados contemplativos, experiências rituais e percepções pessoais podem possuir enorme importância para quem as vive.

Mas experiência pessoal e evidência histórica pertencem a categorias diferentes.

Alguém pode afirmar: “em minha prática, compreendo Astaroth dessa forma”.

Isso é diferente de afirmar: “Astaroth era comprovadamente cultuada dessa maneira no segundo milênio antes da era comum”.

Uma frase descreve experiência religiosa.

A outra exige documentação histórica.

Uma tradição pode ser viva sem fingir ser imutável

Religiões nunca existem fora do tempo.

Até mesmo na Antiguidade, divindades recebiam novos títulos, adquiriam características, eram aproximadas de outras divindades e assumiam formas diferentes em cidades distintas.

A própria história de Inanna e Ishtar demonstra a complexidade desses processos. 2

Estudos sobre religiões pagãs modernas também mostram enorme diversidade entre grupos contemporâneos, inclusive em seus métodos de conexão com tradições pré-cristãs. 1

Reconhecer transformação não destrói tradição.

Permite compreender que tradição também é uma forma de transmissão.

Fidelidade histórica não significa congelar o sagrado no passado. Significa não atribuir ao passado aquilo que nasceu no presente.

O culto à Soberana nos dias atuais

Dentro do Templo Soberano de Astaroth, nossa prática nasce do encontro entre estudo, devoção, experiência espiritual e construção ritual contemporânea.

Não buscamos apagar as transformações históricas.

Não fingimos que um rito moderno foi necessariamente praticado da mesma maneira há milhares de anos.

Não ignoramos os grimórios.

Mas também não permitimos que a demonologia europeia seja a única lente através da qual Astaroth possa ser compreendida.

Nossa tradição reconhece a longa trajetória que atravessa antigas divindades, mudanças de nome, culturas, conflitos religiosos e novas interpretações.

E é dentro dessa consciência que cultuamos Astaroth no presente.

Não como demônio.

Mas como Divindade.

Como Grande Deusa.

Como a Soberana deste Templo.

Estudamos o passado para compreender sua trajetória. Construímos nossa prática no presente sabendo exatamente onde termina a história documentada e onde começa nossa devoção.

Cultuar hoje também exige consciência

A busca espiritual pode ser profundamente pessoal.

Mas isso não significa que estudo, discernimento e responsabilidade precisem ficar do lado de fora.

Cultuar Astaroth nos dias atuais significa, para nós, reconhecer sua longa história sem reduzir a Soberana a apenas uma de suas representações.

Significa estudar aquilo que pode ser documentado.

Reconhecer aquilo que permanece incerto.

Assumir aquilo que pertence à tradição contemporânea.

E viver a devoção com consciência de que o sagrado não precisa da invenção de uma falsa antiguidade para possuir valor.

A presença da Deusa acompanha aqueles que a honram. Que a devoção caminhe sempre ao lado do conhecimento.

Pesquisa e documentação

Fontes e referências

Neste artigo, as fontes acadêmicas ajudam a contextualizar tanto as antigas tradições religiosas quanto a diferença metodológica entre religiões antigas e práticas contemporâneas. As posições devocionais do Templo são apresentadas como tradição própria.

01

Doyle White, Ethan. Modern Paganism. Oxford Research Encyclopedia of Religion, 2026. Estudo de referência sobre religiões pagãs modernas, sua relação com tradições pré-cristãs, diversidade interna e desenvolvimento contemporâneo.

02

Heffron, Yağmur. ORACC – Ancient Mesopotamian Gods and Goddesses. Inana/Ištar. Recurso acadêmico sobre história, culto, iconografia, funções e transformações de Inanna e Ishtar na antiga Mesopotâmia.

03

The Cambridge Handbook of Western Mysticism and Esotericism. Capítulo: Contemporary Paganism. Referência para o estudo das religiões pagãs contemporâneas, seus projetos de reconstrução ou conexão com passados pré-cristãos e suas práticas modernas.

04

Johann Weyer. Pseudomonarchia Daemonum. Edição de 1577. Fonte primária para a inserção de Astaroth na literatura demonológica europeia do século XVI.

05

Lemegeton Clavicula Salomonis. Ars Goetia. Entrada 29: Astaroth. Fonte primária para a descrição demonológica posterior, seus atributos e posição no catálogo goético.

06

Rountree, Kathryn. Contemporary Pagan and Native Faith Movements in Europe. Berghahn Books, 2015. Coletânea acadêmica sobre diversidade, reconstrução, identidade e transformação em movimentos religiosos pagãos contemporâneos.

Nota editorial: este artigo não apresenta as práticas contemporâneas do Templo Soberano de Astaroth como reconstruções arqueológicas exatas de um culto antigo. Quando falamos da prática do Templo, estamos descrevendo nossa tradição religiosa atual. Quando fazemos afirmações sobre a Antiguidade, buscamos sustentá-las com documentação histórica, arqueológica ou pesquisa acadêmica.

Biblioteca do Templo Sacerdotisa Jocyana

Templo Soberano de Astaroth

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