A origem de Inanna
O que os primeiros registros da Mesopotâmia, a cidade de Uruk e os antigos símbolos podem nos revelar sobre as origens de uma das mais importantes Deusas do mundo sumério.
Quando falamos sobre uma divindade tão antiga quanto Inanna, existe uma pergunta aparentemente simples: onde, afinal, ela surgiu?
Não existe um documento antigo informando quando seu culto começou, quem o criou ou em qual momento uma determinada comunidade passou a cultuá-la.
O que temos são vestígios.
Símbolos, estruturas religiosas, inscrições, objetos, listas de divindades e textos preservados ao longo de milhares de anos.
Quando esses registros são analisados em conjunto, eles nos permitem acompanhar parte da formação histórica de uma das mais importantes divindades da antiga Mesopotâmia.
E uma cidade ocupa posição central nessa investigação: Uruk.
Procurar a origem de Inanna não significa encontrar um único momento de nascimento, mas acompanhar os vestígios de uma tradição religiosa que começou há mais de cinco mil anos.
Uruk e os primeiros vestígios de Inanna
Para compreender os primeiros registros relacionados a Inanna, precisamos voltar ao sul da Mesopotâmia durante o quarto milênio a.C.
Esse período foi marcado por importantes transformações sociais.
Comunidades cresceram, centros urbanos se expandiram, sistemas administrativos se tornaram mais complexos e surgiram algumas das primeiras formas de escrita conhecidas.
Uma das cidades que ocupou posição central nesse processo foi Uruk, localizada no atual território do Iraque.
É justamente em Uruk que encontramos alguns dos vestígios mais antigos associados ao culto de Inanna.
Por isso, quando buscamos a origem histórica da Deusa, Uruk se torna um dos principais pontos de partida.
O Eanna e a presença de Inanna em Uruk
A relação entre Inanna e Uruk está profundamente ligada a um importante complexo religioso conhecido como Eanna.
O nome costuma ser traduzido como algo próximo de “Casa do Céu”.
Ao longo da história mesopotâmica, o Eanna se tornou o grande centro religioso relacionado a Inanna em Uruk.
Reis de diferentes períodos restauraram, ampliaram e realizaram obras nesse espaço sagrado.
Isso demonstra que a ligação da Deusa com a cidade permaneceu viva durante muitos séculos.
Mas as raízes dessa relação são muito anteriores às inscrições reais que chegaram até nós de períodos posteriores.
Escavações em Uruk revelaram estruturas, objetos e representações pertencentes ao final do quarto milênio a.C. que ajudam a reconstruir o ambiente religioso no qual o culto de Inanna começou a ganhar forma histórica.
Uruk não nos fornece uma “data de nascimento” para Inanna. O que ela oferece são alguns dos vestígios mais antigos de sua presença religiosa.
Antes da imagem humana: o antigo símbolo de Inanna
Um dos elementos mais interessantes relacionados às primeiras fases do culto de Inanna não é uma estátua representando uma mulher.
É um símbolo.
Na arte arcaica de Uruk, aparece repetidamente uma estrutura semelhante a um feixe ou poste de junco, com uma forma curva ou semelhante a um laço em sua parte superior.
Esse emblema é identificado pelos estudiosos como um antigo símbolo associado a Inanna.
Ele também possui relação com os sinais utilizados nos primeiros sistemas de escrita para representar seu nome. 1
Selos cilíndricos do período de Uruk igualmente apresentam esse símbolo.
Um exemplar conservado pelo British Museum, datado aproximadamente entre 3300 e 3000 a.C., apresenta dois desses emblemas, identificados pelo museu como símbolos de Inanna. 2
Isso revela algo muito importante:
antes de existir uma iconografia padronizada da Deusa em forma humana, sua presença já podia ser comunicada através de um emblema religioso.
O que conseguimos identificar
Uruk. A cidade fornece alguns dos mais antigos contextos arqueológicos associados ao culto de Inanna.
Eanna. O grande complexo religioso de Uruk tornou-se profundamente associado à Deusa.
Emblema de junco. Um antigo símbolo relacionado a Inanna aparece em arte e registros arcaicos.
Escrita. Seu nome aparece entre os primeiros sistemas de registro desenvolvidos na Mesopotâmia.
O que significa o nome Inanna?
Até mesmo a origem e o significado de seu nome precisam ser tratados com algum cuidado.
Uma interpretação conhecida relaciona o nome Inanna à expressão suméria nin-an-ak, normalmente entendida como algo próximo de “Senhora do Céu”.
Essa explicação aparece com frequência em estudos sobre a Deusa, mas não é a única hipótese discutida pelos pesquisadores. 3
Isso é importante porque, quando lidamos com tradições tão antigas, nem sempre a origem de um nome pode ser reconstruída com absoluta certeza.
O que sabemos é que Inanna pertence ao universo religioso sumério e que seu nome foi transmitido dessa maneira na tradição suméria.
Mais tarde, ela seria profundamente relacionada à divindade conhecida em acádio como Ishtar.
A Inanna mais antiga já era a Deusa dos grandes mitos?
Quando estudamos Inanna através dos textos preservados de períodos posteriores, encontramos uma divindade extremamente complexa.
Ela aparece associada ao amor, à sexualidade, à guerra, ao poder, à soberania, à realeza e ao planeta Vênus.
Porém, não devemos transportar automaticamente todas essas características para os primeiros momentos de seu culto.
A história de uma divindade também pode sofrer transformações.
Funções podem ganhar maior importância, mitos podem se desenvolver e tradições locais podem ser incorporadas ao longo dos séculos.
Por isso, a Inanna que conhecemos através dos grandes hinos e narrativas sumérias não necessariamente corresponde de maneira exata à forma como a Deusa era compreendida nos períodos mais antigos de Uruk.
A associação astral com Vênus, por exemplo, aparece de maneira mais claramente documentada no terceiro milênio a.C. e em períodos posteriores. 4
A Inanna dos grandes poemas não precisa ter surgido pronta. Parte de sua identidade foi construída, preservada e transformada durante séculos de história religiosa.
De uma Deusa de Uruk a uma grande divindade da Mesopotâmia
Em algum momento, o culto profundamente relacionado à cidade de Uruk ultrapassou seus limites.
Inanna passou a aparecer em diferentes cidades, templos, listas divinas e tradições religiosas da Mesopotâmia.
Já nas antigas listas de divindades do período Dinástico Inicial, Inanna ocupa posição elevada entre os grandes deuses. 3
Isso mostra que sua importância não permaneceu restrita a um único centro urbano.
Durante os séculos seguintes, reis invocariam seu nome, templos seriam dedicados a ela e diferentes tradições incorporariam sua presença.
Seu culto atravessaria mudanças políticas, dinastias, línguas e diferentes períodos da história mesopotâmica.
A antiga Deusa de Uruk havia se tornado uma das figuras religiosas mais importantes da Mesopotâmia.
Quando a história de Inanna encontra Ishtar
À medida que diferentes populações e idiomas coexistiam na Mesopotâmia, tradições religiosas também entravam em contato.
É nesse contexto que Inanna passa a ser profundamente identificada com a Deusa semítica conhecida como Ishtar.
Em períodos posteriores, encontramos frequentemente a mesma grande divindade sendo chamada de Inanna em sumério e Ishtar em acádio. 3
Mas dizer simplesmente que “Inanna virou Ishtar” reduz um processo histórico muito mais complexo.
Estamos falando de séculos de contato entre povos, idiomas, cidades, instituições e tradições religiosas.
Divindades podiam ser aproximadas, identificadas ou reinterpretadas dentro desses encontros culturais.
A relação entre Inanna e Ishtar, portanto, será melhor compreendida quando observamos esse processo gradual de aproximação religiosa.
Inanna e Ishtar se tornaram profundamente relacionadas, mas essa relação pertence a uma história de encontros culturais que aconteceu ao longo do tempo.
Por que estudar a origem de Inanna?
Conhecer a origem de Inanna ajuda a compreender toda uma sequência de transformações religiosas que aconteceriam depois.
Sem compreender Inanna, torna-se mais difícil estudar com profundidade a história de Ishtar.
Sem compreender as tradições mesopotâmicas e sua circulação, também perdemos parte do contexto necessário para estudar posteriormente Astarte e as transformações que levariam ao nome Astaroth.
Isso não significa afirmar que Inanna, Ishtar, Astarte e Astaroth sejam simplesmente a mesma figura em todos os períodos.
Cada nome pertence a contextos históricos, linguísticos, culturais e religiosos específicos.
O que existe é uma longa história de relações, encontros, identificações, mudanças e permanências.
E para compreender essa história com responsabilidade, precisamos começar pelos registros mais antigos.
Uma Deusa nas origens da civilização urbana
Talvez um dos aspectos mais fascinantes da história de Inanna seja perceber a enorme antiguidade de sua presença.
Quando algumas das primeiras cidades cresciam no sul da Mesopotâmia, encontramos vestígios relacionados ao seu culto.
Quando os primeiros sistemas de escrita começaram a ser desenvolvidos, seu nome e seus símbolos já faziam parte daquele universo religioso.
Séculos depois, quando sacerdotes, escribas e reis registravam hinos, mitos e inscrições, Inanna continuava presente.
Por isso, procurar sua origem não significa encontrar um único momento em que a Deusa “nasceu”.
Significa acompanhar os vestígios de uma tradição religiosa que atravessou mais de cinco mil anos.
Primeiro encontramos símbolos.
Depois, nomes, templos, títulos, hinos e mitos.
E através deles, podemos observar uma figura divina que atravessou diferentes sociedades e se tornou uma das Deusas mais importantes do antigo Oriente Próximo.
Antes de conhecermos a Inanna dos grandes mitos, existia uma tradição muito mais antiga, preservada nos vestígios da própria formação da civilização mesopotâmica.
Fontes e referências
Este artigo apresenta uma introdução histórica às origens do culto de Inanna. Temas específicos como Uruk, Eanna, iconografia arcaica, Vênus, mitologia suméria e a relação entre Inanna e Ishtar serão aprofundados em artigos próprios.
Steinkeller, Piotr. Inanna's Archaic Symbol. Estudo relacionado ao antigo emblema associado a Inanna e sua presença na documentação arcaica da Mesopotâmia.
The British Museum. Selo cilíndrico do período de Uruk, aproximadamente 3300–3000 a.C., contendo emblemas identificados pelo museu como símbolos de Inanna.
ORACC — Ancient Mesopotamian Gods and Goddesses. Inana/Ištar. Material acadêmico sobre o nome, funções, documentação e desenvolvimento histórico de Inanna/Ishtar.
Black, Jeremy; Green, Anthony. Gods, Demons and Symbols of Ancient Mesopotamia. British Museum Press. Obra de referência sobre divindades, símbolos e iconografia da antiga Mesopotâmia.
Collins, Paul. The Sumerian Goddess Inanna (3400–2200 BC). Papers from the Institute of Archaeology, vol. 5, 1994.
Harris, Rivkah. Inanna-Ishtar as Paradox and a Coincidence of Opposites. History of Religions, vol. 30, n. 3, 1991.
Nota editorial: este artigo trata especificamente da origem histórica de Inanna e dos primeiros vestígios relacionados ao seu culto. Seus mitos, sua associação com Vênus, o Eanna, a cidade de Uruk e sua relação com Ishtar poderão receber estudos próprios para que cada tema seja desenvolvido com a profundidade necessária.
Templo Soberano de Astaroth