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Quem é Astaroth?

História, tradição e espiritualidade na construção de uma das figuras mais complexas da tradição ocidental.

Leitura estimada: 12–15 min
Última revisão: setembro de 2026
Templo Soberano de Astaroth

Quando alguém pesquisa Astaroth pela primeira vez, é comum encontrar respostas completamente diferentes.

Em alguns lugares, Astaroth aparece como um espírito masculino presente em grimórios europeus. Em outros, seu nome é relacionado a Astarte, Ashtoreth, Ishtar e a tradições muito anteriores ao desenvolvimento da demonologia moderna.

Em práticas espirituais contemporâneas, existem ainda tradições que se relacionam com Astaroth a partir de uma compreensão divina, feminina e devocional.

Então, afinal, quem é Astaroth?

A resposta não cabe em uma única definição. Para compreender essa figura, precisamos observar diferentes períodos históricos, povos, idiomas, textos religiosos e processos de transformação cultural.

Também precisamos evitar uma armadilha comum: imaginar que a história de uma divindade funciona como uma linha reta, na qual um nome simplesmente substitui o anterior sem mudanças.

O que encontramos é muito mais complexo.

Antes de Astaroth, encontramos Astarte

Muito antes do aparecimento de Astaroth na literatura demonológica europeia, encontramos Astarte, ou Ashtart, uma importante divindade das tradições semíticas ocidentais.

Sua presença é especialmente associada ao antigo Levante e a contextos fenícios. Com as redes marítimas e comerciais fenícias, representações relacionadas a Astarte passaram a aparecer em diferentes regiões do Mediterrâneo. 1

O Metropolitan Museum of Art, por exemplo, documenta a presença de representações de Astarte ou Ashtart em diferentes pontos do Mediterrâneo durante o primeiro milênio antes da era comum. 1

Em Chipre, peças arqueológicas também testemunham a forte influência fenícia e a presença do culto de Astarte. 2

Isso é fundamental para nossa compreensão: estamos falando de tradições religiosas existentes muitos séculos antes dos textos europeus em que Astaroth posteriormente apareceria.

Para estudar Astaroth, não basta começar pelos grimórios. É necessário olhar também para aquilo que existia muito antes deles.

Inanna, Ishtar e Astarte são a mesma Deusa?

Essa pergunta aparece constantemente quando começamos a investigar as origens relacionadas a Astaroth.

E a resposta precisa ser dada com cuidado.

Inanna pertence originalmente ao contexto sumério.

Ishtar é o nome semítico oriental de uma divindade que, ao longo da história mesopotâmica, foi identificada e fundida com Inanna. O projeto acadêmico ORACC, voltado às fontes da antiga Mesopotâmia, distingue justamente esses antecedentes históricos ao explicar o processo de identificação entre Inanna e Ishtar. 3

Astarte ou Ashtart, por outro lado, pertence sobretudo às tradições semíticas ocidentais.

Há relações linguísticas, religiosas e culturais entre esses universos e, em diferentes épocas, divindades também foram aproximadas, comparadas ou identificadas entre si.

Isso, contudo, não significa que Inanna, Ishtar e Astarte fossem simplesmente uma única figura absolutamente idêntica, cultuada da mesma maneira em qualquer cidade, período ou cultura.

Cada contexto possuía seus próprios mitos, títulos, práticas, templos, funções e interpretações.

Relação histórica não significa identidade absoluta. Compreender as conexões é diferente de apagar as particularidades de cada tradição.

Síntese histórica

O que podemos afirmar com maior segurança?

1

Inanna pertence originalmente ao contexto sumério; Ishtar possui uma história própria de origem semítica e posteriormente foi identificada com Inanna.

2

Astarte ou Ashtart pertence principalmente ao universo semítico ocidental e possui documentação muito anterior aos grimórios europeus.

3

Ashtoreth é a forma encontrada no texto bíblico hebraico para a divindade relacionada a Ashtart/Astarte.

4

Astaroth aparece muito posteriormente em textos demonológicos europeus. Isso significa que estamos diante de uma longa história de transmissão, transformação e reinterpretação, e não simplesmente de uma troca de nomes sem alterações.

Ashtoreth e a transformação do nome

Outro nome fundamental para compreender essa trajetória é Ashtoreth.

É dessa forma que a antiga divindade aparece em passagens do texto bíblico hebraico, sendo relacionada a Ashtart ou Astarte.

Uma interpretação filológica tradicional, registrada por estudiosos como Morris Jastrow Jr. e George A. Barton na Jewish Encyclopedia, explica a forma Ashtoreth como uma alteração de Ashtart associada às vogais de bosheth, palavra ligada à ideia de “vergonha”. 4

É importante apresentar essa explicação como interpretação filológica histórica, e não como uma fórmula simplificada que encerra toda a discussão sobre o nome.

Ainda assim, esse registro nos ajuda a compreender algo essencial: divindades antigas não foram transmitidas apenas por seus próprios devotos.

Elas também foram descritas, reinterpretadas e julgadas por tradições religiosas diferentes.

Quando uma religião registra a divindade de outra, essa descrição também revela o olhar religioso de quem está escrevendo.

Da Antiguidade à demonologia não existe uma linha reta

É tentador resumir toda essa história em uma sequência simples: Inanna tornou-se Ishtar, Ishtar tornou-se Astarte, Astarte tornou-se Astaroth.

Mas essa fórmula é simplificada demais para representar o que as fontes mostram.

Existiram contatos culturais, identificações, empréstimos religiosos, mudanças linguísticas e novas interpretações.

Ao mesmo tempo, existiram diferenças regionais e períodos em que essas tradições não podem ser tratadas como se fossem uma única religião contínua.

Por isso, nesta Biblioteca, preferimos falar em trajetórias, relações e transformações em vez de apresentar uma genealogia absoluta que as evidências históricas não permitem demonstrar com a mesma simplicidade.

Astaroth nos grimórios

Séculos depois das antigas tradições relacionadas a Astarte, encontramos Astaroth em um ambiente completamente diferente: a demonologia e a magia cerimonial europeias.

Em 1577, Johann Weyer publicou a Pseudomonarchia Daemonum como parte da quinta edição de sua obra De Praestigiis Daemonum.

Na organização preservada na edição de Joseph H. Peterson, Astaroth aparece como o espírito de número 28. 5

Posteriormente, na tradição manuscrita do Lemegeton, também chamado The Lesser Key of Solomon, encontramos Astaroth novamente.

Na Ars Goetia, Astaroth aparece como o 29º espírito. 6

Na Ars Goetia, Astaroth é apresentado como um poderoso duque, descrito sob forma angelical, montado sobre uma criatura semelhante a um dragão e carregando uma serpente.

O texto atribui a ele conhecimento de acontecimentos passados, presentes e futuros, capacidade de revelar segredos e conhecimento das chamadas artes liberais.

Também afirma que governa quarenta legiões de espíritos. 6

É importante perceber a mudança de cenário.

O Astaroth dos grimórios está sendo descrito dentro de uma cosmologia cristã e demonológica muito posterior às religiões antigas nas quais Astarte havia sido cultuada.

Por que Astaroth aparece como homem nos grimórios?

Esse é um dos pontos que mais causa estranhamento para quem chega às fontes antigas e depois encontra a descrição goética.

Astarte é historicamente documentada como uma divindade feminina. Já o Astaroth da literatura demonológica europeia passa a ser descrito gramaticalmente e iconograficamente como masculino.

Não temos um único documento capaz de explicar sozinho quando, por que e através de qual autor toda essa transformação ocorreu.

Por isso, afirmar uma causa única seria ir além daquilo que as fontes atualmente permitem demonstrar.

O que podemos observar é o resultado: quando Astaroth aparece nos grandes catálogos demonológicos europeus, sua apresentação já pertence a uma estrutura religiosa profundamente diferente.

Este tema merece um estudo próprio e será aprofundado em outro artigo da Biblioteca.

Então Astaroth era uma Deusa que foi transformada em demônio?

Essa frase é comum e consegue transmitir uma ideia geral: existe uma tradição antiga ligada a uma divindade e existe uma representação demonológica posterior.

Como explicação histórica completa, porém, ela é insuficiente.

Entre esses dois extremos existem séculos de mudanças políticas, culturais, linguísticas e religiosas.

Portanto, precisamos evitar dois erros.

Primeiro: começar a história apenas pelos grimórios

Fazer isso ignora que nomes e tradições relacionadas a Astarte existiam muito antes do surgimento da demonologia europeia moderna.

Segundo: tratar todos os nomes como idênticos

Dizer que Inanna, Ishtar, Astarte, Ashtoreth e Astaroth são simplesmente nomes intercambiáveis de uma única figura, sem qualquer mudança, também apaga as diferenças históricas que as próprias fontes revelam.

A questão mais interessante está justamente no caminho entre esses extremos.

Nomes atravessam culturas. Divindades são reinterpretadas. Símbolos recebem novos significados. E cada período deixa marcas naquilo que chega até nós.

E quem é Astaroth dentro do Templo Soberano?

Aqui é fundamental separar pesquisa histórica de tradição espiritual contemporânea.

A documentação histórica nos permite acompanhar nomes, culturas, registros arqueológicos, textos religiosos e as diferentes representações que surgiram ao longo dos séculos.

Ela também demonstra que a figura conhecida atualmente como Astaroth não permaneceu estática.

Nomes, atributos e interpretações foram transmitidos, modificados e reconstruídos em diferentes contextos religiosos.

A vivência espiritual do Templo Soberano de Astaroth, porém, pertence a outro campo.

Nós não cultuamos Astaroth como um demônio.

Dentro do Templo, Astaroth é adorada e cultuada como uma antiga Divindade que atravessou séculos de transformações religiosas, culturais e simbólicas.

Nosso culto busca olhar para além da representação demonológica encontrada nos grimórios europeus e compreender também as tradições muito anteriores que fazem parte dessa longa trajetória histórica.

Isso não significa negar ou apagar os grimórios.

Eles existem, são documentos importantes e fazem parte da história de Astaroth. Por isso, são estudados e apresentados nesta Biblioteca.

O que não fazemos é transformar documentos produzidos em contextos muito posteriores na única definição possível sobre quem Astaroth é.

Para o Templo Soberano, sua imagem demonológica representa uma das etapas de uma trajetória muito mais extensa , e não o ponto de origem nem a totalidade de sua identidade.

Em nossa tradição, Astaroth é cultuada em sua dimensão divina e soberana.

Ela é a Grande Deusa. Ela é a Soberana deste Templo.

É sob essa compreensão que construímos nossa prática, nossa devoção e nossos estudos, procurando manter uma diferença clara entre aquilo que podemos demonstrar historicamente e aquilo que pertence à nossa experiência religiosa.

Conhecer os registros antigos, as transformações de seu nome e sua presença posterior na demonologia não enfraquece nossa devoção.

Pelo contrário, permite compreender a extensão e a complexidade da trajetória que chegou até nós.

Estudamos todas as faces que a história atribuiu a Astaroth, mas não permitimos que apenas uma delas determine quem Ela é para nós.

Conhecer antes de concluir

Perguntar “Quem é Astaroth?” inevitavelmente abre outras perguntas.

Quem foi Astarte?
Qual é a relação entre Inanna e Ishtar?
Onde Astarte entra nessa trajetória?
Como Ashtoreth aparece nos textos bíblicos?
Quando Astaroth aparece na demonologia europeia?
Por que os grimórios passaram a descrevê-lo como masculino?

Essas perguntas não diminuem a experiência espiritual.

Elas nos impedem de construir conhecimento apenas a partir de frases repetidas, interpretações modernas ou informações sem origem verificável.

Esta Biblioteca nasce justamente do encontro entre estudo, história, tradição e devoção.

Conhecer a história não retira o mistério do sagrado. Conhecer a história nos permite chegar diante dele com mais consciência.

Pesquisa e documentação

Fontes e referências

As fontes abaixo sustentam a parte histórica e documental deste artigo. A compreensão religiosa do Templo é apresentada separadamente e identificada como tradição contemporânea.

01

The Metropolitan Museum of Art. Assyria to Iberia at the Dawn of the Classical Age. Material curatorial sobre a circulação de tradições do antigo Oriente Próximo e representações de Astarte/Ashtart no Mediterrâneo.

02

The Metropolitan Museum of Art. Terracotta Woman, Cypro-Archaic II, ca. 600–480 BCE. Registro arqueológico cuja descrição observa a presença estabelecida da veneração de Astarte em Chipre sob influência fenícia.

03

ORACC – Ancient Mesopotamian Gods and Goddesses. Inana/Ištar. Recurso acadêmico sobre Inanna e Ishtar, incluindo a distinção de origem e o posterior processo de identificação entre ambas.

04

Jastrow, Morris Jr.; Barton, George A. Ashtoreth. Jewish Encyclopedia. Fonte para a discussão histórica da relação entre Ashtoreth, Ashtart/Astarte e a interpretação filológica associada a bosheth.

05

Johann Weyer. Pseudomonarchia Daemonum. Publicada com a edição de 1577 de De Praestigiis Daemonum. Edição digital e notas de Joseph H. Peterson. Fonte primária para Astaroth no catálogo demonológico de Weyer.

06

Lemegeton Clavicula Salomonis. Ars Goetia. Edição de Joseph H. Peterson. Fonte primária para Astaroth como 29º espírito, sua descrição, atribuições e comando de quarenta legiões.

Nota editorial: fontes antigas, textos religiosos e grimórios refletem os contextos culturais e teológicos em que foram produzidos. A inclusão de uma obra nesta bibliografia não significa que o Templo Soberano de Astaroth adote integralmente a visão religiosa apresentada por ela. Sempre que possível, esta Biblioteca diferencia documentação histórica, interpretação acadêmica, tradição demonológica e prática espiritual contemporânea.

Biblioteca do Templo Sacerdotisa Jocyana

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