Astarte: a Grande Deusa do Levante
Quem foi Astarte, em quais contextos ela foi cultuada e por que sua presença se tornou tão importante entre as tradições religiosas do antigo Levante.
Astarte foi uma importante divindade das tradições religiosas do antigo Levante.
Seu nome aparece em diferentes formas linguísticas e atravessa contextos religiosos separados por séculos, cidades e comunidades distintas.
Ela esteve ligada a campos como poder, sexualidade, fertilidade e guerra, embora seus atributos não tenham sido idênticos em todos os lugares onde foi cultuada.
A própria variedade das fontes antigas mostra que Astarte não pode ser reduzida a uma única definição simples.
Antes de estudá-la como uma possível ponte para tradições posteriores, é necessário conhecê-la como divindade em seu próprio contexto.
Astarte não existe apenas como um nome anterior a Astaroth. Ela possui história, culto e presença próprios no antigo Levante.
Athtart, Ashtart e Astarte
Quando falamos em Astarte, estamos lidando com uma divindade conhecida por diferentes formas do nome.
Em estudos modernos, aparecem grafias como Athtart, Ashtart e Astarte.
Essas formas refletem diferenças de idioma, transliteração e transmissão cultural.
A forma Astarte se tornou especialmente conhecida através da tradição grega e do uso posterior nas línguas ocidentais.
Por isso, variações no nome não significam necessariamente que estejamos diante de divindades totalmente independentes.
Mas também não autorizam tratar todos os registros como se viessem do mesmo tempo, lugar ou tradição.
Um nome pode atravessar idiomas sem atravessar o tempo de maneira intacta. Cada forma precisa ser lida dentro do contexto em que aparece.
Astarte no antigo Levante
O Levante corresponde, de forma ampla, à faixa oriental do Mediterrâneo onde floresceram diferentes povos, cidades e tradições religiosas.
É nesse ambiente que encontramos algumas das principais evidências relacionadas a Athtart/Ashtart/Astarte.
Os registros mostram uma divindade presente em diferentes comunidades do mundo semítico ocidental.
A pesquisa moderna também alerta que não existia uma única forma absolutamente uniforme de Athtart em todos os contextos.
Isso significa que uma descrição válida para uma cidade ou período não pode ser automaticamente transportada para todos os outros.
Astarte não possuiu uma única função em todos os lugares
Astarte costuma ser relacionada a sexualidade, fertilidade, poder e guerra.
Essas associações são importantes, mas exigem cautela.
A documentação varia conforme o lugar e o período histórico.
Em vez de imaginar uma lista fixa de atributos repetida de forma idêntica em toda parte, é mais correto observar como diferentes comunidades compreenderam a Deusa.
Em alguns contextos, aspectos ligados ao poder e à guerra ganham destaque.
Em outros, aparecem com mais força elementos relacionados à sexualidade, à fertilidade ou à proteção.
Campos frequentemente relacionados a Astarte
Poder. Sua presença pode estar ligada a contextos de autoridade e soberania.
Guerra. Em determinadas tradições, Astarte assume características guerreiras.
Sexualidade e fertilidade. Esses campos aparecem associados à Deusa em diferentes registros, mas não de maneira uniforme.
Proteção e presença cultual. Seu culto alcançou múltiplas cidades e diferentes comunidades.
Astarte e o mundo fenício
No primeiro milênio antes da era comum, Astarte aparece de forma marcante no universo fenício.
Os fenícios estavam organizados em importantes cidades costeiras e mantinham amplas redes de comércio e contato pelo Mediterrâneo.
O Metropolitan Museum of Art observa que representações de Astarte ou Ashtart começaram a aparecer em diferentes regiões do Mediterrâneo durante o início do primeiro milênio a.C., carregadas pelos fenícios. 1
Essa circulação ajuda a explicar por que encontramos a presença da Deusa muito além de uma única cidade ou território.
O processo, porém, não deve ser entendido como simples reprodução.
Ao entrar em contato com novos ambientes religiosos, imagens e práticas podiam adquirir características locais.
A expansão do culto não significou uniformidade. Astarte circulou entre culturas e, ao circular, também foi reinterpretada.
Astarte atravessou o Mediterrâneo
A influência fenícia contribuiu para levar imagens e formas de culto relacionadas a Astarte a diferentes regiões.
Em Chipre, por exemplo, o Metropolitan Museum of Art registra que a veneração de Astarte estava bem estabelecida devido à influência fenícia. 2
O mesmo museu conserva objetos cipriotas associados ao culto da Deusa, incluindo representações humanas e modelos de santuário. 2 3
Essa presença em diferentes regiões mostra como Astarte passou a participar de redes religiosas mais amplas no Mediterrâneo.
As relações específicas entre Astarte, Chipre e outras divindades mediterrâneas serão aprofundadas em artigos próprios.
Astarte e Ishtar são a mesma Deusa?
Astarte e Ishtar pertencem a tradições historicamente relacionadas.
Seus nomes também apresentam proximidades linguísticas dentro do universo das antigas línguas semíticas.
Mas isso não significa que todos os registros de Astarte sejam apenas cópias ocidentais de Ishtar.
Astarte desenvolveu identidades próprias em diferentes contextos do Levante e do Mediterrâneo.
Por isso, nesta Biblioteca, evitamos usar a fórmula simplificada “Ishtar virou Astarte”.
É mais correto falar em relações, aproximações, transmissão cultural e transformação religiosa.
Relação histórica não significa identidade absoluta. Astarte merece ser compreendida também fora da sombra de Ishtar.
E onde Astaroth entra nessa história?
O nome Astaroth aparece em contextos muito posteriores aos antigos cultos de Astarte.
A relação entre os nomes é importante para compreender parte da longa trajetória que levou uma antiga divindade a ser reinterpretada em ambientes religiosos posteriores.
Mas o objetivo deste artigo não é reconstruir toda essa transformação.
Isso já é tratado em outros textos da Biblioteca.
Aqui, Astarte permanece como protagonista.
Por que Astarte merece um artigo próprio?
Porque Astarte não deve existir apenas como uma ponte entre Ishtar e Astaroth.
Ela possui documentação própria, história própria, contextos cultuais próprios e presença religiosa em diferentes regiões.
Conhecê-la separadamente permite compreender melhor tanto suas relações com tradições anteriores quanto as transformações que vieram depois.
Somente quando Inanna, Ishtar e Astarte são estudadas dentro de seus próprios contextos podemos investigar, com mais precisão, como essas tradições se encontraram.
Astarte dentro de sua própria história
Astarte foi uma importante divindade do antigo Levante.
Sua presença alcançou diferentes comunidades e atravessou fronteiras culturais.
O mundo fenício teve papel fundamental na circulação de imagens e tradições relacionadas à Deusa pelo Mediterrâneo.
Ao mesmo tempo, os registros mostram que Astarte não permaneceu absolutamente igual em todos os lugares.
Cada contexto acrescentou novas formas de representação e novas relações religiosas.
É justamente essa complexidade que torna Astarte uma figura indispensável para compreender parte da história religiosa do antigo Oriente Próximo.
Antes de perguntar no que Astarte se transformou, é preciso conhecer quem ela foi dentro das culturas que realmente a cultuaram.
Fontes e referências
Este artigo apresenta uma introdução histórica a Astarte. Temas específicos como Ugarit, Chipre, Egito, Afrodite, iconografia e cultos locais serão desenvolvidos em artigos próprios.
The Metropolitan Museum of Art. Assyria to Iberia at the Dawn of the Classical Age. Material curatorial sobre a circulação de representações de Astarte/Ashtart pelo Mediterrâneo através das redes fenícias.
The Metropolitan Museum of Art. Terracotta Woman, Cypro-Archaic II, ca. 600–480 BCE. O catálogo registra que a veneração de Astarte estava bem estabelecida em Chipre sob forte influência fenícia.
The Metropolitan Museum of Art. Terracotta model of a shrine, Cypro-Archaic II. Modelo de santuário contendo representação anicônica identificada pelo museu como Astarte.
Wilson-Wright, Aren M. Athtart: The Transmission and Transformation of a Goddess in the Late Bronze Age. Mohr Siebeck, 2016. Estudo especializado sobre diferentes formas de Athtart no Egito, Emar e Ugarit.
Musée du Louvre. Acervos de antiguidades orientais relacionados a Astarte e aos contextos do Levante antigo.
The Metropolitan Museum of Art. Publicações sobre arte, religião e circulação cultural entre o Levante, Chipre e o Mediterrâneo.
Nota editorial: este artigo mantém Astarte como tema central e evita transformar assuntos específicos em resumos superficiais. Ugarit, Egito, Chipre, relações com Afrodite, iconografia e cultos fenícios locais serão tratados separadamente para que cada assunto receba desenvolvimento próprio.
Templo Soberano de Astaroth