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Inanna, Ishtar e Astarte: como essas tradições se encontraram?

Três divindades com histórias próprias, relações reais e séculos de transformações: entenda por que elas são associadas sem reduzi-las a uma única identidade.

Leitura estimada: 13–16 min
Última revisão: setembro de 2026
Templo Soberano de Astaroth

Inanna, Ishtar e Astarte são frequentemente apresentadas como se fossem simplesmente três nomes sucessivos de uma única Deusa.

A ideia parece simples: Inanna teria se tornado Ishtar, Ishtar teria se tornado Astarte e, muito depois, Astarte teria dado origem a Astaroth.

Mas a história das religiões do antigo Oriente Próximo é mais complexa do que isso.

Existem relações reais entre essas tradições. Existem aproximações linguísticas, identificações religiosas, circulação cultural e características compartilhadas.

Ao mesmo tempo, cada uma dessas divindades possuiu história, espaço geográfico e desenvolvimento próprios.

Por isso, a pergunta mais interessante não é simplesmente “elas eram a mesma Deusa?”

A pergunta é: como tradições diferentes passaram a se aproximar?

A relação entre Inanna, Ishtar e Astarte não precisa ser reduzida nem a uma identidade absoluta nem a uma separação completa.

Primeiro, precisamos reconhecer três contextos diferentes

Inanna, Ishtar e Astarte não surgem exatamente no mesmo ambiente cultural.

Inanna pertence originalmente à tradição suméria da antiga Mesopotâmia.

Ishtar pertence ao universo das línguas semíticas orientais, especialmente ao mundo acádio, e posteriormente tornou-se profundamente identificada com Inanna. 1

Athtart/Ashtart/Astarte aparece nas tradições semíticas ocidentais do Levante e desenvolveu diferentes formas em comunidades da Idade do Bronze e de períodos posteriores. 2

Portanto, antes mesmo de falar sobre associação, precisamos reconhecer que estamos lidando com tradições diferentes.

Mapa inicial

Três nomes, três contextos

I

Inanna. Tradição suméria, com papel central em Uruk e na religião mesopotâmica.

II

Ishtar. Nome semítico oriental profundamente associado à Mesopotâmia acádia, babilônica e assíria.

III

Astarte. Divindade das tradições semíticas ocidentais, especialmente ligada ao Levante.

Inanna e Ishtar: o caso mais claro de identificação

Entre as três relações, a identificação entre Inanna e Ishtar é a mais bem documentada.

O ORACC explica que o nome semítico Ištar pertencia originalmente a uma divindade independente que posteriormente foi fundida e identificada com a Inanna suméria. 1

Com o tempo, essa aproximação se tornou tão profunda que fontes e estudos modernos frequentemente utilizam a forma conjunta Inanna/Ishtar.

Isso não significa que as duas tenham começado como exatamente a mesma figura.

Significa que, dentro da própria Mesopotâmia, duas tradições religiosas foram progressivamente aproximadas até se tornarem amplamente identificadas.

Inanna e Ishtar mostram que duas tradições podem se fundir de forma profunda sem que precisemos fingir que sempre tiveram a mesma origem.

Ishtar e Astarte: proximidade não significa cópia

A relação entre Ishtar e Astarte é diferente.

Os nomes pertencem a um universo linguístico semítico relacionado, e as duas tradições também apresentam aproximações religiosas.

Mas Astarte não deve ser tratada apenas como uma “Ishtar do oeste”.

O estudo de Aren M. Wilson-Wright sobre Athtart demonstra que, na Idade do Bronze, existiam múltiplas formas da Deusa em lugares como Egito, Emar e Ugarit. 2

Essas manifestações estavam relacionadas às realidades das comunidades que as cultuavam.

Portanto, mesmo dentro do nome Athtart, já encontramos diversidade religiosa.

Quanto mais observamos as fontes antigas, menos sentido faz imaginar uma única Deusa imóvel simplesmente mudando de nome ao atravessar cada povo.

Como tradições religiosas diferentes se encontravam?

Os povos do antigo Oriente Próximo não viviam isolados.

Comércio, diplomacia, migrações, guerras, conquistas e circulação de escribas colocavam comunidades diferentes em contato constante.

Quando pessoas, objetos e línguas circulavam, práticas religiosas também podiam circular.

Uma divindade estrangeira podia ser reconhecida como semelhante a uma divindade local.

Seu nome podia ser adaptado.

Alguns de seus atributos podiam ser incorporados a outra tradição.

Em outros casos, a divindade podia ser cultuada mantendo uma identidade própria.

Sincretismo não significa simplesmente “uma virou a outra”

Quando falamos em sincretismo religioso, estamos descrevendo processos de aproximação, identificação ou combinação entre tradições diferentes.

Esses processos podem acontecer de maneiras muito variadas.

Duas divindades podem ser identificadas por possuírem funções semelhantes.

Uma divindade estrangeira pode receber o nome de uma figura local.

Um atributo pode ser incorporado sem que toda a identidade seja absorvida.

É justamente por isso que a palavra sincretismo precisa ser usada com mais precisão do que a fórmula “X virou Y”.

Religiões antigas não se encontravam apenas por substituição. Elas podiam traduzir, aproximar, combinar e reinterpretar o divino.

Por que “Inanna → Ishtar → Astarte” é simples demais?

Porque esse esquema parece sugerir uma sucessão direta.

Como se Inanna tivesse deixado de existir para virar Ishtar, e depois Ishtar tivesse deixado de existir para virar Astarte.

Não é isso que as fontes mostram.

Inanna e Ishtar passaram por um processo de identificação muito profundo dentro da Mesopotâmia. 1

Athtart/Astarte, por sua vez, desenvolveu formas próprias dentro das tradições do Levante e de outros contextos da Idade do Bronze. 2

O resultado é mais parecido com uma rede de relações do que com uma linha reta.

Em vez de uma linha

Pense em uma rede histórica

1

Inanna possui origem e desenvolvimento dentro da tradição suméria.

2

Ishtar possui origem semítica e posteriormente é profundamente identificada com Inanna.

3

Athtart/Astarte pertence às tradições semíticas ocidentais e desenvolve identidades próprias no Levante.

4

Contato cultural, semelhança de funções e transmissão religiosa aproximam essas tradições ao longo do tempo.

Compartilhar atributos não prova identidade absoluta

Amor, sexualidade, guerra, poder e soberania aparecem de formas diferentes nas tradições ligadas a Inanna, Ishtar e Astarte.

Essas aproximações são importantes para estudar relações históricas.

Mas semelhança de função não é suficiente, sozinha, para provar que duas divindades sempre foram exatamente a mesma figura.

O mesmo vale para semelhanças de nome.

Elas são pistas.

Precisam ser lidas junto de idioma, época, região e documentação disponível.

A pesquisa histórica não precisa escolher entre “todas são iguais” e “não possuem relação”. Há espaço para relações reais sem apagar diferenças reais.

Astarte também atravessou novas fronteiras

A história de Astarte mostra claramente como uma divindade podia continuar circulando.

O Metropolitan Museum of Art registra que, no início do primeiro milênio a.C., representações de Astarte/Ashtart passaram a aparecer em diferentes regiões do Mediterrâneo através das redes fenícias. 3

O mesmo material observa que aspectos de sua persona posteriormente influenciaram a imagem de Afrodite no mundo grego. 3

Esse exemplo ajuda a visualizar o processo: circulação não significa reprodução perfeita.

Ao entrar em outro ambiente, uma tradição também pode ser reinterpretada.

E onde Astaroth entra nessa rede?

Astaroth pertence a uma etapa muito posterior dessa longa história.

Antes de seu nome aparecer em contextos demonológicos europeus, já existiam séculos de transformações, aproximações e transmissões religiosas.

Por isso, compreender Inanna, Ishtar e Astarte ajuda a enxergar o cenário histórico maior.

Mas não devemos usar essa relação para fabricar uma sequência documental que as próprias fontes não apresentam.

A conexão com Astaroth é tema de outros artigos da Biblioteca.

Aqui, nosso objetivo é compreender como tradições antigas podiam se encontrar antes dessa etapa posterior.

Uma história de encontros, não de substituições simples

Inanna, Ishtar e Astarte possuem histórias próprias.

Mas suas tradições não existiram em mundos completamente isolados.

Inanna e Ishtar passaram por um processo profundo de identificação.

Ishtar e Astarte pertencem a universos semíticos relacionados, mas Astarte desenvolveu identidades próprias no Levante.

Comércio, deslocamento, conquista, contatos diplomáticos e transmissão cultural criaram espaços em que religiões diferentes puderam se aproximar.

Compreender esse processo nos permite abandonar tanto a ideia de uma linha reta quanto a ideia de tradições completamente desconectadas.

O que emerge é uma história de relações, transformações e permanências.

Inanna, Ishtar e Astarte não precisam perder suas diferenças para que possamos reconhecer as profundas relações que aproximaram suas tradições.

Pesquisa e documentação

Fontes e referências

Este artigo trata especificamente das relações entre tradições religiosas. Os artigos individuais sobre Inanna, Ishtar e Astarte aprofundam cada divindade em seu próprio contexto.

01

Heffron, Yağmur. ORACC – Ancient Mesopotamian Gods and Goddesses. Inana/Ištar (goddess). Recurso acadêmico fundamental para compreender a origem distinta do nome Ishtar e sua posterior identificação com a Inanna suméria.

02

Wilson-Wright, Aren M. Athtart: The Transmission and Transformation of a Goddess in the Late Bronze Age. Mohr Siebeck, 2016. Estudo especializado que demonstra a existência de múltiplas formas de Athtart em diferentes comunidades da Idade do Bronze.

03

The Metropolitan Museum of Art. Assyria to Iberia at the Dawn of the Classical Age. Material curatorial sobre a circulação de Astarte/Ashtart pelo Mediterrâneo através das redes fenícias e sua influência posterior no mundo grego.

04

ORACC – Electronic Pennsylvania Sumerian Dictionary. Registros lexicais que mostram equivalências antigas entre Inanna e Ištar em tradições textuais mesopotâmicas.

05

Black, Jeremy; Green, Anthony. Gods, Demons and Symbols of Ancient Mesopotamia: An Illustrated Dictionary. Referência geral para o estudo de divindades, sincretismos e tradições religiosas da Mesopotâmia.

06

Estudos comparativos do antigo Oriente Próximo. A análise histórica de sincretismo e transmissão exige sempre considerar idioma, época, região e contexto de culto, evitando tratar semelhanças como prova automática de identidade absoluta.

Nota editorial: o esquema “Inanna → Ishtar → Astarte” pode ser útil como uma visualização muito básica, mas não deve ser entendido como uma sequência literal em que uma divindade desapareceu para se transformar na seguinte. Esta Biblioteca prefere falar em identificação, transmissão, contato cultural, sincretismo e transformação, conforme o contexto histórico.

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